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Projetos

Hidroponia

O Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil 2017 mostra que, naquele ano, foram coletados 71,6 milhões de toneladas de resíduos sólidos no Brasil e que 40,9% desse lixo teve destino impróprio, como lixões ou aterros controlados, nocivos ao meio ambiente e às pessoas em comunidades próximas. Além disso, cerca de 6,9 milhões de toneladas de lixo não foram coletadas. Tais dados evidenciam a necessidade da reutilização desses resíduos, em especial os orgânicos, que atraem vetores de doenças e contaminam solo e cursos d’água próximos devido à produção de chorume durante a decomposição da matéria orgânica, que possui alto poder de contaminação, além da liberação de gases – como o metano – que contribuem para o efeito estufa.

Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), 200 mil pessoas morrem todos os anos devido ao uso de agrotóxicos. Pesquisa realizada em 2017 pela ONG Public Eye (da Suíça) mostra que a multinacional Syngenta exporta para o Brasil 32% de seus produtos classificados como “extremamente tóxicos”, cuja venda não é autorizada naquele e em muitos outros países. Além do uso indiscriminado desses produtos, no Brasil também são utilizados muitos agrotóxicos proibidos em outros países (paraquate, atrazina e acefato) pela associação a casos de câncer, danos genéticos e suicídios. Em 2017, as plantações brasileiras receberam mais de 60 mil toneladas desses químicos. Dados da FAO, Consultoria Phillips Mcdougal, UNESP e ANDEF apontam o Brasil como o maior consumidor de agrotóxicos do mundo. 

Essas são algumas das informações que serviram de base do projeto Hidroponia, uma forma de reaproveitamento do lixo orgânico gerado em casa, que surgiu com o intuito de aplicar os conceitos trabalhados em sala de aula em diferentes áreas pelos estudantes do 2º ano do Ensino Médio. Além dos objetivos pedagógicos do projeto – como o uso de cálculos volumétricos, análises gráficas e proporcionalidades –, ele foi desenvolvido para atender a estas duas grandes problemáticas da sociedade brasileira atual: o descarte de resíduos sólidos e o uso de agrotóxicos.

Por necessitar de pouco espaço, poder ser posicionada de forma vertical e demandar menos tempo de manutenção do que as hortas convencionais, a prática da hidroponia é viável em grande parte das residências e para pessoas que trabalham por longos turnos e procuram uma alternativa para o consumo de alimentos industrializados. O intuito do projeto era elaborar uma receita para um composto 100% orgânico, capaz de suprir as necessidades das plantas sem a adição de químicos e que pudesse ser produzida a partir do lixo orgânico da própria residência; reaproveitamento do lixo orgânico domiciliar; e despertar na comunidade o interesse e a responsabilidade para uma alimentação saudável. O composto inicial foi dedicado para o cultivo de alfaces; porém, com o desenvolvimento e o aperfeiçoamento do projeto, serão estudadas variações para outras culturas.

O trabalho teve início em maio de 2018, com um embasamento teórico nas aulas de Geografia e Biologia. Após essa primeira fase, professores de Química e Biologia auxiliaram na análise e na melhoria da fórmula do composto orgânico. Então, na Mostra Científica do Colégio, realizada no mês de julho, o projeto foi apresentado pela primeira vez à comunidade educativa.

Nos meses de setembro, outubro e novembro, o projeto foi levado a mostras de iniciação científica realizadas na PUCRS, na UFSM, na UFN e no Perfil Empreendedor. A motivação de estudantes para separação dos resíduos orgânicos, o convite a educadores de diferentes áreas do conhecimento para conhecer o projeto e contribuir para o seu aperfeiçoamento técnico, bem como a apresentação do protótipo criado e seu funcionamento em mostras de iniciação científica e eventos de empreendedorismo juvenil foram formas de conscientizar o meio acadêmico além dos muros da escola e a comunidade sobre a importância de se pensar e se promoverem ações sustentáveis para a preservação do meio ambiente e da vida no planeta.

Diversos alunos e educadores foram mobilizados a reaproveitar resíduos como cascas de ovo e laranja, borra de café, cinzas de lareira. Além de propor uma possibilidade sustentável para o descarte do lixo orgânico, o projeto também incentivou os alunos a procurarem uma alimentação mais saudável, com alimentos orgânicos produzidos em casa, livres de agrotóxicos.

Os estudantes elaboraram um folheto explicativo para ser divulgado na comunidade com informações sobre como elaborar um sistema de hidroponia e fizeram pequenas oficinas com a Educação Infantil, criando a cultura e fortalecendo a importância de uma alimentação saudável, tornando-se protagonistas no processo de ensino e aprendizagem de crianças de 3 a 5 anos de idade.

O trabalho obteve grande reconhecimento pela comunidade educativa do Colégio e também da comunidade técnica e acadêmica, que teve oportunidade de conhecer a proposta e o experimento criado a partir da pesquisa em Mostras de Iniciação Científica. A comunidade em geral também conheceu e valorizou a iniciativa em exposição realizada a partir de um concurso de empreendedorismo juvenil desenvolvido pela RBS TV Santa Maria.

A partir do destaque obtido na Jornada Acadêmica Integrada da UFSM,  onde os estudantes envolvidos receberam bolsa de estudos e apoio para aprofundamento da pesquisa, o projeto também será expandido para as comunidades da cidade, com a sua divulgação em escolas de Educação Básica da rede municipal de ensino e com a criação de uma cartilha com orientações da implantação do sistema para as famílias.