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As emoções em tempos de pandemia

23/09/2020
Educação
Reflexões sobre os sentimentos decorrentes da rotina de distanciamento social a partir da fala de especialistas

​​Baseado nos principais questionamentos que recebemos sobre esse cenário atípico causado pela pandemia de Covid-19, buscamos trazer reflexões a partir do projeto Em Família. O primeiro tema abordado foi A aprendizagem em tempos de pandemia, e contou com a participação de especialistas em psicologia, neurociência e pedagogia, todos de diferentes empreendimentos da Rede Marista. Desta vez, voltamo-nos para as diferentes emoções e sentimentos presentes ao longo deste período desafiador. 

Os convidados da segunda parte do projeto foram: Ana Cristina Alves, assessora de área da Gerência Educacional dos Colégios da Rede Marista, mestre em Linguística Aplicada e psicóloga; Carolina Falcão, psicanalista, professora da Escola de Ciências da Saúde e da Vida PUCRS; Elizangela Silveira, orientadora educacional do Colégio Marista João Paulo II e especialista em psicopedagogia; Konstans Steffen, orientadora educacional do Colégio Marista Graças e Mestre em Educação; Luiz Gustavo Guilhermano, médico psiquiatra e professor da Escola de Medicina da PUCRS.

Assista ao vídeo abaixo:

 


Sentimentos intensificados

As reações ao cenário pandêmico variam de acordo com cada indivíduo, assim como a intensidade delas. Dessa forma, o cuidado com a saúde mental ganha ainda mais relevância no período pandêmico, pois não podemos deixar de lado as possíveis consequências dessa ameaça à saúde, mas também ao desenvolvimento das crianças, às vivências da adolescência e à realidade dos adultos. O apoio familiar e até mesmo profissional são essenciais para reduzir possíveis danos no presente e no futuro.

​As relações familiares

Mesmo com todas as complicações que uma pandemia carrega, um fato é inegável: as famílias têm tido mais tempo juntas. A psicanalista Carolina Falcão enxerga esse momento como como uma forma de aproximação, no qual todos estão próximos. “Temos a oportunidade de acompanhar e conhecer aspectos dos nossos filhos que de outra forma não teríamos essa possibilidade de acessar sentimentos, de ver reações, de pensar como eles são na sala de aula ou de como eles lidam com os colegas, e assim por diante”, comenta. 

Se por um lado essa proximidade é benéfica, por outro ela também pode gerar um excesso nas relações. Dentro da psicanálise, de acordo com Carolina, isso se chama relações endogâmicas. “São as relações constitutivas e com as quais a gente carrega uma história inteira.” Um exemplo disso é a realização das atividades de ensino que a criança faz com a ajuda da mãe nesse momento. “Quando ela está se relacionando com a mãe, ela não faz isso só naquela tarefa objetiva. Ela está se relacionando com a história toda que ela tem com a mãe. E isso faz muita diferença”, explica a especialista.

A presença da família é essencial nesse momento, afinal ela é exemplo, cuidado e proteção. Os pais podem e devem auxiliar as crianças e os jovens a identificar as emoções sentidas na pandemia, conforme conta a orientadora educacional Konstans Steffen. “Nomear, respeitar esse sentimento, buscar alguma forma de expressão, e quem sabe associar a algum comportamento que de alguma forma traz conforto”, declara.

A educadora e psicóloga Ana Cristina Alves reforça a necessidade de as famílias ouvirem seus filhos. “Deem atenção, escutem, validem, conversem, cuidem das palavras e de como são ditas, precisamos entrar no mundo da criança e do adolescente para chegar perto de seus sentimentos, e isso acontece também por meio das conversas. Aprimorem a comunicação por mais difícil que seja e sabemos que é, mas tentem, é um tempo também de esforços. Se para nós, adultos, já causa uma tensão, uma angústia, vamos imaginar como é para eles que, possivelmente, não conseguirão nomear tão claramente o que estão sentindo, nós precisamos ajudá-los.”, acrescenta a especialista.

Quando buscar apoio profissional?

Além de ajudar as crianças e os adolescentes a relatarem seus sentimentos durante o período de isolamento social, as famílias também precisam se atentar aos possíveis sintomas que podem surgir. Para Konstans “mudanças no sono, na alimentação, no tempo que permanece no quarto, nas brincadeiras, podem ser sinais de alerta”.

A psicanalista Carolina reforça que eles apresentarão sintomas, porém que nem sempre isso indicará adoecimento. “Crianças com comprometimento da habilidade de se relacionar, sentindo-se entristecidas ou solitárias, comportamentos mais agressivos. Tudo isso precisa ser acolhido. Não é fácil, mas precisa ser acolhido.” Ainda conforme a especialista, essas características devem virar preocupação quando se tornam a única forma de enfrentamento. “Quando a intensidade desse sintoma for capaz de produzir impedimentos, produzir sofrimento, produzir inibições no funcionamento da criança”, salienta.

Entretanto, um aspecto positivo desse contexto é o grande suporte emocional que a sociedade tem tido. “Tanto atendimento, tanta compreensão, tanto estudo, tanto impacto psicológico. De maneira que o que nós estamos fazendo aqui, e que estão fazendo em muitos outros lugares, vai minimizar bastante o impacto emocional”, informa o médico psiquiatra Luiz Gustavo Guilhermano. 

Qual é o papel da escola nesse momento?

A escola também faz parte da rede de apoio dos estudantes. Dessa forma, sempre que se percebe sinais, ela busca encaminhar as situações com a família, comenta Konstans. “Preservando, então, a coletividade, mas a individualidade deste estudante”.

Pensando nas características do desenvolvimento das crianças, elas necessitam de uma linguagem concreta, de materialidade para desenvolver afetividade, segundo a orientadora educacional Elizangela Silveira. Além das crianças, a especialista recorda que os adolescentes também precisam de espaço para se expressar, para expor como percebem o que está acontecendo.

Para Konstans, por mais incerto que seja o momento, a escola permanece viva e em movimento. “É um pouco diferente, pois o colégio também precisou de adaptações. Mas sentir-se vinculado à escola é sentir uma certeza importante nesse momento turbulento. É sentir que ainda sou pertencente e vinculado a esse espaço, a essas pessoas”, relembra.

A especialista ainda retoma que o papel das escolas não se restringe ao ensino, mas também a um autogerenciamento do projeto de vida das crianças e dos jovens. “O projeto de vida, que é a ação de construir-se integralmente, num movimento constante de reconstrução de si mesmo, nesse momento é o que mais se está sendo feito. Reavaliar, repensar, ressignificar”. Nesse período delicado, os colégios precisam se comprometer ainda mais com a promoção da vida, constata.

​Para refletir

“Nós não escolhemos de uma maneira direta passar por tudo isso, mas podemos escolher algumas coisas diante disso tudo que está acontecendo, como investir em saber mais sobre nós mesmos”, fala Ana Cristina. Além disso, a especialista nos deixa uma importante reflexão: o que você vai contar disso tudo depois que isso passar?